Camboja

Camboja 2017-07-07T12:11:28+00:00

A difícil pedalada no Camboja.

16/04 – Pedalamos bem rápido para entrar no Camboja. Tudo certo com o visto. Chegando na cidade de Poipet, tava rolando festa de ano novo, geral nos atacando com água. Chato demais. Tudo bem, a festa é muito importante para os cambojanos, mas é chato pra gente que tá pedalando e não curtindo. Teve um cara que queria tacar talco molhado na minha cara, eu tava pedalando e ainda tive que tirar a mão dele da minha direção. Teve outro que queria pegar em mim, tentou duas vezes até que o Thiago xaropou e eles foram embora. Teve um que tacou um plástico cheio de água que pegou no lombo mas não estourou, doeu pra cacete.

A diferença da Tailândia é grande, já sentimos a pobreza do país. Casinhas de resto de madeira, várias pessoas morando juntas na mesma casa sem energia, sem saneamento básico. Estava um pouco desanimada. Achamos um hotel de um chinês. A noite assistimos outro documentário sobre o Khmer vermelho, isso nos deixou totalmente deprimido. Ah sim, vamos falar sobre o Khmer vermelho, mais conhecido como Holocausto Cambojano.

Em 1975 o Khmer Vermelho tomou o poder do Camboja, liderado por Pol Pot, ele e seu aliados transformaram o próspero país em um campo forçado de trabalho. Ele ordenou que todas as pessoas deixassem suas casa nas áreas urbanas para irem trabalhar no campo. Destruiu hospitais, escolas e bibliotecas. Ele meio que queria voltar para a Idade Média, portanto todas as tecnologias da época foram destruídas. Ele queria um país autossuficiente. Intelectuais foram mortos. Religião então, nem pensar. Os templos budistas foram queimados e muitos monges mortos. Quem soubesse escrever ou até mesmo quem usasse óculos deveria ser extinto. Eles não queriam gente subversiva atrapalhando seu governo. Basicamente foi isso.

Funcionava da seguinte maneira: eles prendiam qualquer pessoa que desconfiassem que era contra o governo, levavam para a prisão e obrigavam a pessoa a fazer uma biografia de si mesmo alegando porque estavam sendo presos. Tinham pessoas que contavam alguma história boba da infância e por isso sabiam porque estavam sendo punidos. Cada pessoa tinha que dedurar mais sessenta pessoas, diante de torturas eles falavam qualquer nome que vinha a cabeça. Aí mais e mais pessoas iam sendo presas e executadas. Assim, atoa. Teve um caso especial que me chamou muito a atenção. O Pintor Vann Nath foi preso sem nem saber o porquê, foi transferido para a famosa prisão S-21 que antigamente era uma escola de ensino médio.  Dos 20.000 mortos nessa prisão, apenas 12 sobreviveram, Nath foi um deles. Por causa de seu talento ele foi salvo. Pintava retratos de Pol Pot e de membros do governo. A sorte dele é que eles amavam sua pintura, outros pintores passaram por lá, mas suas pinturas não foram aprovadas e logo foram mortos. Sua arte é maravilhosa, apesar de triste. Vinte anos depois do ocorrido, Nath voltou a prisão com mais um dos sobreviventes, ainda levou dois dos soldados que mataram milhares de pessoas para um interrogatório. Ele queria entender o porquê disso tudo. Se quiserem conferir esse vídeo emocionante, acessem:

Como eu queria ter visto algum dos quadros de Nath.

Foram 4 anos de regime, 1/3 da população foi morta. O Vietnã teve que intervir e acabar com esse regime doente. Abaixo um outro vídeo muito forte e triste produzido logo após o fim do Khmer Vermelho. Importante assistir para terem noção do que foi isso. Impossível não chorar.

Depois de ter pesquisado sobre essas histórias horríveis, comecei a ficar muito desanimada de pedalar pelo Camboja. Estava meio deprê. Olhava para as pessoas e dava vontade de chorar. Não conseguia aceitar o que aconteceu. Estava com muito medo de enfrentar um país tão machucado. Ficava procurando marcas de minas terrestres, pois ainda existem muitas ativas. Ficava preparada para ver gente mutilada. Estava criando um sensacionalismo barato na minha cabeça.
Ainda era feriado do ano novo e as pessoas estavam em clima de festa nos atacando. Eu tava muito estressada. Juntou o calor extremo com as paisagens feias desmatadas e as lembranças dos vídeos que vi, fiquei mal. Sem contar na comida. Era só ovo no café-da-manhã. Aí quando achávamos um restaurante, era só sopa de miojo ou fried rice (não aguento nem sentir mais o cheiro forte do shoyo). Ta aí uma coisa que eu não imaginava que incomodasse tanto: comida ruim, na verdade não é ruim, é diferente da nossa. Tava sendo muito difícil. A gente ficava sonhando com a nossa comida brasileira, nosso arroz e feijão, como a gente pode sentir tanta falta de algo tão simples. Nos mercadinhos não tinha nada que podíamos comprar, nem para fazer comida e nem lanche. Estavamos nos sustentando com ovo. Santo ovo.

Mais tarde, por sorte achamos um hotel de outro chinês antes de escurecer, aqui só tem hotel chinês, ainda bem. Quando entramos no quarto, caiu uma tempestade muito forte. Nunca havia visto uma chuva assim. As chuvas da Ásia não são brincadeira não, acho que são as monções se manifestando. Nunca mais ficamos com vontade de diocacampar, não tem lugar propício. E nesse calor, ficar dentro da barraca fechada não daria mesmo.

Seguimos rumo a famosa cidade de Siem Reap. Chegando lá, não acreditamos. Depois de passarmos por lugares muito simples, vimos o contraste absoluto de uma cidade voltada para o turismo. Hotéis de luxo que mais pareciam palácios. Cidade muito rica e bem bonita, mas aquilo ali não é Camboja. Fomos procurar hotel na parte mais humilde. Ficamos 6 dias na cidade e fomos visitar os famosos templos de Angkor.
Angkor é um sítio arqueológico gigante. É considerado a maior estrutura religiosa do mundo. Antigamente era Hindu, depois se tornou Budista. Foi construído no século XII pelo rei Suryavarman II.
É tudo muito sensacional. Os templos são feitos com blocos de pedras encaixadas uma na outra, sem concreto entre elas, tipo um lego. Ficava imaginando as coisas que aconteceram por ali. Dá muita vontade de voltar no tempo para poder dar uma espiadinha. Fico viajando nisso.
Uma das coisas mais legais que vi foi uma placa dizendo: não dê dinheiro ou doces para as crianças, elas podem deixar de ir a escola para virem para cá. Muito legal essa preocupação que eles tem com as crianças, achei fantástico.
No caminho tinha uma banda de pessoas vítimas de mina terrestre. Cada um deles não tinha um membro do corpo e estavam ali fazendo sua música. Eles não pediam dinheiro, eles vendiam seu CD. Na mesma hora aquela tristeza que sentia sumiu e me deu muito orgulho de saber o tanto que aquele povo é digno. Eles não reclamam, não pedem esmola. Eles seguiram em frente com a cabeça erguida. E diante de tanta dificuldade, eles são felizes. Que belo exemplo. Isso me deixou muito aliviada.
Agora, o que a gente mais gostou nesse passeio foram dos macacos. Tinha uma família nas margens do rio que estava muito a vontade, tiramos muitas fotos deles, poder observar de perto, foi maravilhoso, eu estava muito empolgada, foi uma delícia.
Nos dois últimos dias em Siem Reap, faltou energia por causa de uma chuva muito forte, mas só faltou na parte pobre, porque na parte rica da cidade estava tudo brilhando de tanta luz. E para chegar água nos quartos precisa da bomba e a bomba precisa de energia, ou seja, dois dias sem luz e sem água estrebuchando de calor. E para compleatr, a moça do hotel que fez o nosso visto para entrar no vietnã, errou a data, tivemos que pagar a mais pelo erro, sendo que nem foi nossa culpa. Nessas horas que é foda não falar inglês direito, posso nem brigar. Pagamos ao todo 170 dólares de visto, putz grila viu! Pelo menos negociamos uma diária grátis para esperar o visto ficar pronto.

Agora, o momento mais lindo de todos. Adoro macacos. É realmente parecido com a gente.

Saímos de Siem Reap. O pedal de hoje foi o mais gostoso. Super fresco e muito agradável. Passamos por lindas vilas. A gente chama de pobreza confortável, na verdade eu diria simplicidade confortável, pois as casinhas são bem bonitinhas. Moraria fácil numa casa dessas. Muitas crianças nos cumprimentando. Em toda a casa que vimos tinha no mínimo 3 crianças, estão recuperando o tempo perdido e a população cresceu bastante. Como é bom observar as pessoas e seus costumes e agora sem tristeza. Achamos uma guest house muito zela, suja e cheia de bichos. Faz parte.
No dia seguinte encontramos uma cidade muito roots. A cidade toda é feita de madeira. Batemos 9.000km, uhuuu!

03/05 – Acordamos bem cedo pois sabíamos que teríamos que pedalar 100km para chegar na cidade de Stung Trang. Para quem viaja de bike parece pouco, mas para a gente que vai bem na calma, é muito. O sol estava de rachar, o asfalto áspero parecia que freava a bike. Estava pesado. O tempo todo o suor misturado com o protetor solar entrava nos meus olhos ardia bastante. Percebi que surgiram várias manchas vermelhas em minhas pernas, demorei a perceber que eram queimaduras, pois eram na parte que não tinha passado o protetor direito. Meus lábios também queimaram. A água ficava quente em questão de minutos, imagina só tomar água quente nesse calor, não morna, mas quente. Esse foi o dia do pedal mais difícil da viagem, daqueles que você fala: nunca mais viajarei de bike. Bate um desanimo de tudo, da vida. Esses dias que passamos no Camboja foram assim. Não estava com a mínima vontade de pedalar. E a vontade de voltar para a casa bateu forte. Acho que chegou o momento de terminar. Diante desse desanimo ainda pensava: putz, ainda falta o Laos e o Vietnã, nesse calor dos infernos infernal. E foi aí que surgiu a grande frase filosófica que eu inventei: “É preciso sentir frio para dar valor ao calor e é preciso sentir calor para dar valor ao frescor.” (Julie Assêncio). Eu só queria poder ficar fresca sem sentir calor nem frio, ficar de boa. Mas aqui na Ásia é impossível.
Depois de muito sacrifício chegamos a cidade. Uma chuva estava se formando e eu pensei, caia tudo na minha cabeça por favor, eu quero um dilúvioooo. Mas ela foi para o outro lado e não senti uma gota.
Foi nessa cidade que comemoramos o niver do Bebezão, 30 aninhos, ou seja, conseguimos realizar a nossa única meta de viagem, que era passar nossos 30 anos na estrada, yes!
Fizemos um jantar e comprarmos umas cervejas da marca Camboja. E foi por causa dela que ficamos 3 dias de ressaca. Que cerva sinistra. Deu até febre. Passamos 3 dias na bosta. E aí aquele desanimo da vida aumentou. Eu não sabia o que era pior: ficar naquele quarto passando mal sem fazer nada ou sair para pedalar e enfrentar o calor demoníaco. Sabe quando você tem desanimo até de tomar decisões, porque nenhuma delas é favorável? Estávamos assim. Melhoramos um pouco e decidimos que era hora de entrar no Laos.
Vamos nessa! Os cambojanos são ótimos, as crianças são lindas e educadas. Camboja foi o país mais difícil de pedalar.

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