Sérvia

Sérvia 2017-07-07T12:11:30+00:00

Pessoas boas estão na Sérvia.

08/10 – Entramos na Sérvia. A homenagem da vez foi para nosso amigo Clinton, que vai ter uma filha da sua namorada, a Sonja, ela é servia.
A fronteira da Bósnia é um quiosque minúsculo e tem um espaço longo até a fronteira da Sérvia. Encontramos um camping muito aconchegante, nos lembrou os campings da Chapada, tinha um espaço pra ficar tranquilo, outro para cozinhar, coisa que os campings da europa meridional não tem. Passamos o dia descansando, que dizer, lavamos as bikes e a barraca. Nosso dia de descanso é dia de ralação, na verdade.

10/10 – O transito é muito tenso, gente fazendo besteira o tempo todo. A gente tinha que se preocupar mais com a galera vindo na outra faixa, pois o tempo todo tinha ultrapassagens zelas. Passamos por uma cidade grande comemos um sanduíche maravilhoso, baratinho. Diocampamos num lugar escondido na estrada.

11/10 – Fizemos um volume bom, e estávamos necessitando de um banho. Vimos alguns preços de hotel, mas não estava na hora de ficar em hotel ainda, como os preços não estavam agradáveis, desistimos. Thiago estava meio triste por ter que ficar sem banho mais um dia. Fomos num posto, enchemos a ducha de agua quente e saímos a procura de um local para tomar banho. Tinha um prédio que não tinha ninguém, entramos por trás e tomamos nosso banho, ai que alívio. Agora é só arrumar um diocamping e dormir lindos e limpos. Avistamos um terreno com algumas casas com cerca, tinha um espaço perfeito para montar a barraca. Tinha uma família do lado de fora, fomos lá perguntar se podíamos acampar ali do lado de fora da casa, porém dentro do terreno. Ah, pra que. Vieram dois irmãos, a mesma cara, falar com a gente, Durde e a Marija. A primeira coisa que fizeram ao se aproximar, foi nos dar a mão para nos cumprimentar. Não faziam idéia do que queríamos, mas nos cumprimentaram com uma cara boa. Disseram que poderíamos acampar dentro do quintal deles, aceitamos e entramos. Marija já logo nos preparou um café, seguido de um bolo maravilhoso que ela tinha acabado de preparar. Como estavam la um casal da família que mora na Inglaterra, Kosana e Branko, conseguimos nos comunicar em inglês. Thiago tomou uma cerveja, eu já tinha enchido o bucho de bolo, quando Kosana nos convidou para um jantar. Um caldo de feijão com porco, preparado em um grande jarro de barro típico sérvio. Minha nossa, que caldo delicioso, de acompanhamento tinha uma salada de repolho e um queijo. Que prato gostoso! O detalhe é que estávamos a procura de feijão fazia tempo, a gente compra feijão enlatado para fazer a sopa da noite. Esse jantar foi um dos maiores picos de felicidade que tive nessa viagem. Poder ter essa experiência de estar dentro da casa de uma família servia comendo um belo jantar típico deles, foi muito bom. Estavam lá também,  o namorado de Marija, o Milenko, a Sara, uma garotinha muito fofa vizinha deles e o velho que eu chamei de Old Man, que velhinho mais bonitinho, seu nome é Slavko, pai do Branko. Além dos quatro cachorrinhos, um mais lindo que o outro, tinha um, o White, que eu fiquei louca de paixão. Que dog gostosinho. Fomos dormir muito felizes. Ainda bem que resistimos e não ficamos em hotel.

15/10 – Passamos por uma cidade grande, comemos um hamburguer, mas nem tava muito bom. Olhamos na internet, recebemos um video do Deputado Tiririca mandando uma mensagem pra gente, ficou irado.
Pedalando já longe da cidade, vejo um cachorrinho lindo na beira da estrada, eu com a minha mania de mexer com todos os cachorros, paro e vou lá falar com ele. O cachorro ficou louco, era filhote, ficava balançando o rabo, latindo meio choramingando, pulando, todo eufórico. Tentei acalmá-lo e nada. Até que tivemos que partir. Quem disse que ele deixava. Ele ficava se enfiando entre uma roda e outra impedindo a gente de pedalar. Ele não nos dava espaço, até que em um minuto de distração conseguimos sair pedalando, ele veio atrás. A gente acelerou bastante para despista-lo, até que chegamos numa subida e não é que o danado conseguiu nos alcançar. Ele corria muito, daí surgiu seu nome: Schumacher. Depois que nos alcançou não conseguimos mais pedalar, ele era muito esperto, sabia que entrando no meio da bike a gente não tinha como pedalar, ele também se ligava quando vinha carro, ia pra fora da estrada. Paramos, demos agua e comida pra ele recuperar as energias. Thiago tentou coloca-lo na garupa, mas ele não ficava. Passou pela nossa cabeça ficar com ele. Ficamos loucos por ele. Mas aí a razão falou mais alto. Não dá, a história ia ser linda, mas ia dificultar muito a viagem. Nossa barraca não cabe mais nada, nem sabemos o tamanho que ele vai ficar. Sem contar que ia ser um grande problema para entrarmos nos países da Ásia. Chegamos no topo de uma descida e decidimos que a melhor coisa a fazer era deixá-lo. Thiago desceu bem rápido e ele foi correndo atrás, eu ultrapassei ele e fomos embora. Deu muita dó. Foi muito difícil pra gente. Se tivéssemos pedalando pela América do Sul, dava pra ficar com ele. Enfim, foi a melhor decisão, na estrada não tinha acostamento e já estava ficando perigoso. Adeus Schumacher! Que você encontre seu caminho. Diocampamos atrás de uma Mesquita. Ficávamos falando: já pensou se o Schumacher aparece, ah aí eu ficava com ele. Esse cachorrinho deixou sua marca em nosso coração. O diocamping foi atrás de uma pequena mesquita.

16/10 – Acordei malzona do estômago, acho que foi o hamburguer, a maionese tava ruim. O tempo tava feio, decidimos parar num posto, na mesma hora caiu o maior temporal. O dono do posto nos deu café e nos ofereceu a ducha para tomarmos banho, que beleza heim. Não poderia ter oferecido coisa melhor! Decidimos ficar em um room para eu me recuperar, estava muito fraca. Room são quartos que a família aluga, são legais e bem mais baratos que hotel.

17/10 – Passamos mais um dia no room, custa 15 euros. Foi bom para descansarmos. Choveu muito.

18/10 – O dia tava bonito, fomos pedalando devagar pois ainda não estava 100% boa. Passamos por belas paisagens. Chegamos numa vila bem bonitinha, já estávamos seguindo, quando Thiago quis voltar para tirar foto de um trator. Nessa, sai um cara da casa, super sorridente, logo de cara nos convida para tomar café em sua casa, ele se chama Sasa (pronuncia Sacha). Nos apresenta sua mulher, a Mirjana que fala inglês, ela prepara um café pra gente. Ficamos a tarde na casa deles trocando ideia. A mãe de Sasa aparece, muito simpática e nos presenteia com um molho de pimentão caseiro, mas que maravilha! Dá nossa hora de partir, mas eles não deixam. Nessa mesma hora acontecia uma festinha com danças típicas da Sérvia, a menos de 2 km da casa de Sasa. Ele liga pra alguém e nos leva até a festa. Nos apresenta para um rapaz muito gente boa, o Milan. Milan é lider de uma ong da cidade, o Grupo Kobra. Vou falar sobre esse importante grupo:

Grupo “Kobra” foi fundado em 2007 numa casa onde tinha um clube da karate. Desde então, desenvolve atividades ambientais e inspira os jovens da vila para serem mais ativo. A sede da organização está no centro Cultural em Donja Toponica.  O grupo tem mais de cinquenta membros ativos de vilas vizinhas e da cidade de Nis. Até agora, o grupo foi premiado várias vezes por suas atividades: A melhor ação de jovens voluntários na Sérvia em 2008 pelo Ministério da Juventude e Desportos; O projeto mais positivo na Sérvia em 2009 pela Fundação Lugares de Coração; Movimento europeu na Sérvia premiou o presidente do Grupo, como O melhor ativista na Sérvia em 2010. Boa Milan!
Até agora, o Grupo organizou mais de vinte projetos na área em que estão trabalhando, enquanto que os mais importantes são: “Paint in green” – parque para as crianças, em vez de aterros sanitários, “Casa para Todos” – renovação do velho Centro Cultural, (agora uma biblioteca e um lugar para encontros de jovens, oficinas e esportes), “Espaços Públicos para Todos” – em vez de aterro agora um lugar para esportes e recreação, “A vida no Campo Hoje” – passeio de bicicleta com 15 jovens que visitaram mais de cem vilas no sul da Sérvia fazendo um documentário sobre a vida no campo hoje.
Os objetivos da organização:
* Incentivar a atividade da juventude para a proteção do meio ambiente;
* Educar os cidadãos, especialmente as crianças, sobre a importância de proteger o meio ambiente, organização de atividades, de modo a reabilitar áreas ameaçadas, bem como a dedicação do público para a mudança de hábitos a respeito do uso dos recursos naturais e tratamento de resíduos;
* Preservar a tradição e cultura;
* Trabalho com grupos marginalizados e sua participação na vida social;
* Reforço da capacidade dos jovens para tomar papéis ativos na sociedade;

Que organização maravilhosa, gente!

Depois da apresentação, um rapaz do grupo de ciclistas da Karavan Tim, o Svetozar que também faz parte da organização, nos ofereceu um belo jantar, aquele caldo de feijão delicioso. Depois da festinha das crianças, começou a festa dos adultos, foi muito legal e animado. Thiago bebeu e se divertiu muito. Eu como tava meio ruim do estômago ainda, nem me atrevi a beber, mas curti do mesmo jeito. Dançamos muito.
E foi na sede dessa linda organização que tivemos uma noite super confortável. Valeu demais Kobras!

19/10 – Acordamos cedo, pois tínhamos combinado de tomar o cafe da manha na casa do Sasa. Chegamos lá comemos uns pães deliciosos feitos pela mãe de Sasa. Milan apareceu, nos despedimos de Sasa e de Mirjana e fomos pra casa do Milan. Trocamos mais idéias, conhecemos sua casa e partimos. E mais uma vez bateu aquela sensação de quase choro de gratidão. Tudo isso por causa de uma foto de um trator. Que coisa, não?
Fomos então para a cidade de Nis, descobrimos que tem um campo de concentração e outros lugares importantes da história. Ficaremos um dia para conferir isso tudo. Ficamos num hostel bem bacaninha e barato.

20/10 – Visitamos o Forte de Nis. A fortificação existente é de origem turca, que datam das primeiras décadas do século 18 (1719-1723). Ele é bem conhecido como um dos monumentos mais importantes e mais bem preservados deste tipo em meados dos Balcãs. A fortaleza foi erguida no local de fortificações anteriores – a antiga romana, bizantina, e ainda mais tarde fortalezas medievais. Hoje é um extenso parque, com lojas e restaurantes. Achei as ruínas mal preservadas. Lugares super antigos, largados no parque, com lixo em cima, pichados. Uma pena.

21/10 – Deixamos o hostel e fomos visitar o campo de concentração, foi operado pela Gestapo alemã e usada para manter os sérvios, judeus durante a Segunda Guerra Mundial capturado. Fundada em meados de 1941, ele foi usado para deter até 35 mil pessoas durante a guerra e foi libertada pelos guerrilheiros iugoslavos em 1944. Mais de 10.000 pessoas morreram no campo. Depois da guerra, um memorial para as vítimas do acampamento foi erguido no Monte Bubanj, onde muitos presos foram baleados. Um memorial museu foi inaugurado no campo em 1967 e em 1979 os acampamentos foram declaradas Monumento Cultural de excepcional importância e veio sob a proteção da República Socialista da Sérvia.
Uma pena não poder tirar foto dentro do museu.
Visitamos também a Torre das Caveiras: Em 1809, os sérvios não queriam mais fazer parte do império turco, se revoltaram. Porém o exército turco era muito numeroso, começaram a invadir a cidade. Quando o comandante sérvio Stevan Sindjelic viu que não ia ter jeito, ao invés de recuar, botou fogo no seu próprio depósito de pólvora, matando sua tropa e milhares de turcos. O comandante turco Hursid Pasha ficou putíssimo, pegou a caveira de todos os mortos sérvios e mandou construir uma torre no meio da cidade com 928 crânios, inclusive de Stevan Sindjelic que ficava no topo, para mostrar o que aconteceria caso de haver mais revoltados. Mas anos depois da construção da torre, os servios conseguiram a independência. Sinistro foi ver as marcas da morte, em cada caveira, marca de tiro, tinha um com um corte muito fundo no crânio, tipo de machado.
Fomos também visitar o local onde Constantino Magno nasceu, em 337, mas estava fechado para reforma. Essa cidade é muito irada mesmo.
Quando saímos do local onde Constantino nasceu, encontramos um membro do Karavan Tim, o Rajko. Batemos um papo, ele também é cicloviajante e estava na festinha do grupo Kobra. Que massa! O diocamping foi num lugar muito lindo!

22/10 – A estrada estava mais tranquila. Fizemos um voluminho, achamos um posto que tinha ducha. Tomamos nosso banho quente, começou a ventar muito forte, aquele vento de chuva. Achamos um diocamping perto do posto, tomamos nossa sopa, entramos e a chuva começa a cair.

23/10 – Choveu a noite toda, pela manha também. Ficamos lá dormindo esperando a chuva passar. Ate que umas 11 da manhã, levantei pra fazer xixi. Quando vi, tinha formado uma lagoa ao redor da barraca, eitha porra! Meu tênis estava submerso na água. Para sair dali tinha que passar pela poça, quando pisei não imaginava que a água estava congelante, meu pé começou a doer sinistramente. Não entrou agua na barraca, pois tínhamos colocado ela em cima de vários galhos cortados. Para pegar as coisas e levar pra um lugar menos encharcado, tinha que passar pela poça e cada vez que entrava nela era uma dor insuportável. Foi horrível. Arrumamos tudo toscamente, e fomos para o posto. A nossa sorte é que tinha um posto perto, se não teríamos congelado. Assim que entrei no posto, não sentia a carne do meu pé, é como se estivesse pisando só com o osso. Coloquei minhas mãos na agua quente, mas não parava de doer. Tive que sentar, relaxar e esperar a dor passar. Nesse dia nos ligamos que o frio da Europa não é brincadeira. Fomos procurar um hotel.

 

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